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Debaixo Da Língua

Debaixo Da Língua

Marcados - final de L e J

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15:45!

As horas hoje voaram, estive o dia todo a pensar na minha despedida. Como posso viver sem amigos? Sem a minha querida mãe? E, principalmente, sem a Maria?

 

 

16:00!
Aqui estou eu à espera da Maria para o nosso último encontro. Tenho de arranjar coragem para contar-lhe, tenho de libertar este sufoco da minha mente. Vai ser fácil! Não… Não vou conseguir…

 

 

16:10!

Estou a vê-la a descer as escadas da escola, o seu sorriso é reluzente, deslumbrante e maravilhoso. Como posso amar tanto uma pessoa? Sinto que o meu coração vai parar quando ela se aproxima de mim, sinto o meu estômago a contorcer-se quando ela olha para mim. Mas, nunca vou ser feliz ao seu lado porque hoje é o último dia em que lhe posso tocar, falar, deslumbrar…

Quero fugir com ela. Será que lhe deveria contar da minha paixão? Não! Só lhe trarei sofrimento.

 

- Olá Cristiano. – Diz Maria sorridente ao aproximar-se de mim.

- Olá. Correram bem as aulas?

- Sim. Quer dizer, a mesma seca de sempre.

- Ah! Onde vamos lanchar?

- É o teu aniversário, logo escolhes tu.

- Oh…

 

 

Vamos ao Pancake light!

Eu sei que ela vai adorar, já lá fomos inúmeras vezes. Vou recordar todos os nossos momentos, e… e… apaixonar-me ainda mais.

 

 

- Adoro as panquecas premier! – Exclama Maria enquanto saboreia a sua última garfada daquele maravilhoso doce.

- Eu sei que adoras este local.

- O ambiente é agradável e as panquecas deliciosas.

- E sem açúcar …

 

 

Tentei ser animado e divertido, a nossa última tarde tinha de ser marcada com sorrisos e não com choros.

E se ela soubesse? Se lhe contasse tudo? A minha paixão? A minha ida para o espaço? O meu sofrimento? Não! Não posso. Iríamos sofrer os dois, eu não aguentaria ver a Maria de rastos. A Maria ficará para sempre no meu coração!

 

Maria dá-me as mãos e beija-me na face. Sinto a minha cara a ruborizar e o meu íntimo a estilhaçar-se.

- Espero que o resto do teu dia seja maravilhoso. Diz ela ao meu ouvido.

- Irá ser … - A minha voz fraqueja ao dizer tal mentira.

- Adeus Cris…

Vejo o seu vulto a desaparecer no horizonte e desfaço-me em lágrimas.

 

 

Rodo a chave e abro a porta de casa. Ouço um choro, aproximo-me dele, sinto as minhas pernas a tremerem. Porque me sinto assim?

Vejo a minha mãe agarrada ao meu álbum de fotográficas a chorar descontroladamente. Abraço-a intensamente.

- Desculpa minha mãe. Amo-te e amar-te-ei para sempre.

Durante longos minutos não nos saiu uma única palavra, apenas o nosso interminável choro.

 

 

“Nunca vós esquecerei. O meu coração será vosso para todo sempre.
Cristiano”

 

Pouso a carta na minha secretária. Ao sentar-me na cama lembro-me de todos os bons momentos passados ao lado das mulheres da minha vida.

É o melhor a fazer! Posso não vos ver mais, mas estarei sempre ao vosso lado.

Subo a cadeira e coloco a corda à volta do meu pescoço.

É a hora!

Chuto a cadeira para longe. Sinto um enorme esticão no meu corpo, as costelas a partirem-se, o meu pescoço a ser estrangulado. Um formigueiro sobe da ponta dos meus dedos até ao meu crânio. Sinto-me a desmaiar. De repente só vejo tudo escuro.

 

Agora, só sinto paz!

 

Fim

 -L&J-